Poesia...

Chove na noite. Sombras confundem a ventania. Um estalido distante, um passo anônimo errante. Na calçada da vida a vida do tempo passeia despercebida. Saudade... Saudade dividida em fragmentos coloridos, tons pálidos enriquecidos, nas nuances da fé e meios tons da esperança... Uma folha solta sobrevoa a esmo pelo jardim... O pensamento vagueia, frases soltas compondo a teia da inspiração se achegando... No espaço aberto da mente, contente, surge de mansinho o poeta esboçando no ar um poema...

            Espírito leve, alma livre, vencendo barreiras, cobrindo distâncias, tatuados nos olhos, lirismo e poesia... Poesia... Poesia do tic-tac das gotas de chuva saltitando no telhado... poesia dos crepúsculos dourados que rebordam as tardes e exaltam nossas almas, como se pétalas de luz desfilassem ante os olhos... poesia da folha da árvore que cresce mansamente no quintal...

            Onde mais encontrar poesia? Ela vive no gesto de ternura que envolve o abraço do filho que enlaça a mãe carinhosamente e na mãe que embala a criança adormecida no colo da infância... e nos olhos do ancião que retrata os slides do tempo... e no sorriso da criança que expressa a pureza imaculada da alma... e no vôo harmonioso do pássaro que corta o espaço vencendo a distância... e no canto alegre do canário que se espalha no vento e se aninha no coração dos ouvidos, e no beijo cálido do beija-flor em cada pétala do jardim e no calor do sol que ilumina as manhãs ... e no andar cansado do lavrador... e na fruta que amanhece madura nos galhos do outono... e nas flores multicolores despencadas nos braços da primavera... e no frio que nos causa arrepio nas asas do inverno... e no calor das ondas que se quebram na praia enlaçando a cálida chegada do verão... e nas lágrimas, de amor, de dor, de esplendor... e na cortina fina que balança ao sabor do vento que irrompe na janela e... e... e onde encontrar um, poeta? Como reconhecer um poeta? Como se fazer poeta?

            Um poeta é aquele que se cala para não perturbar a música do vento... aquele que olha a chuva e flutua nas gotas de amor que alimenta a terra de energia... aquele que pára o tempo no meio da escalada e perde um infinito momento a festejar a tarde ensolarada... aquele que caminha sorridente porque é um dia de sol embora na estrada da vida, a vida não lhe tenha dado sapatos... aquele que senta na relva e saúda a borboleta que sobrevoa desprevenida... aquele que chora a morte da rosa pálida no vaso solitário... aquele que bendiz a dor, porque sabe que ela é o estandarte da escola da vida... aquele que retrata nos olhos o lirismo de uma cachoeira para guardá-la no livro dos tesouros da alma... Aquele que bendiz o novo dia e registra na agenda da memória o que aprendeu de bom no anterior... aquele que aprende a viver com o passado, mas não vive o presente nele... aquele que ama sem nada exigir... e dá sem nada pedir... aquele que agradece a benção de viver e não pede graças por estar vivo... o sábio que ouve a sabedoria das crianças com a humildade de um aprendiz... aquele que se curva ante a beleza da Grande Natureza num gesto de respeito à grandiosidade da Obra do Supremo Arquiteto.

            Ah! Poesia, poetas, chuva, sombras... As pálpebras cansadas se rendem... a caneta tomba inerte sobre a folha deixando o poema inacabado... lá fora a poesia da vida, saltita e se agita sob a inspiração do Poeta Maior...

Ivanir Pineda Sanches – RUNAP , Ano III, Nº VI