Retorno

            Amanheci nos braços de um sonho  matreiro, abracei o travesseiro e num sorriso maroto, saudei a luz do sol...

Regressei ao dia atribulado da minha rotina, rebordando a cortina fina que esvoaça meus devaneios...

Uma vontade estranha de cantar, um desafio mudo no ar, uma certeza feliz de reencontrar o elo perdido da minha metade...

Da minha metade perdida numa curva qualquer do caminho, da minha metade esquecida numa gaveta incerta do armário do passado, acuada na parede da incerteza... Parte de mim que não se fez forte na escalada e desabou, rolou a escada, voltando ao ponto de partida...

           Parte de mim que retorna de mansinho, tateando devagarinho a parte alegre que retorna à vida... Parte da menina que cresceu depressa, parte da adolescente que do amor fez festa e do amargor da ressaca que depois sempre resta, cresceu mais forte, fez a própria sorte e se tornou mulher...

Parte da mulher que se vestiu de sonhos, acreditou na fantasia, rodopiou na ventania, da surpresa torpe de muito pouco encontrar... e se feriu nas pedras... rastejou na terra e chorou sem cessar... e clamou ao vento, orou ao firmamento e com muito sentimento abraçou a dor e se perdeu no ar...

Uma bolha de sabão colorida, no espaço aberto da desventura perdida, na cela fechada da prisão cósmica ressentida, na mão incerta do destino, sem guarida...

Metade que acorda encantada, descobrindo surpresa, extasiada, que para ver a luz, basta abrir os olhos...

Ah! Metade tão boba de mim perambulando a esmo, descobriu enfim que o espinho é o complemento da flor...

Ah! Manhã de sol, ruídos de festa no ar, que vontade estranha de cantar, você não sabe, mas, voltei pra mim...

Ivanir Pineda Sanches - RUNAP – Ano III – nº VI